Wednesday, June 28, 2006

ÊXTASE







Quando meus lábios tocarem tua pele

e minhas mãos percorrerem todo teu corpo,

mergulharei nos mais profundos desejos de tua alma...

E sentirás dentro de ti, todo meu amor.
Tu verás que todas as nossas fantasias,
ganharão asas e nos conduzirão a um universo só nosso,
e, como cometas em rota de colisão,
nos encontraremos em um extremo prazer.

Neste instante, o silêncio,
por fração de segundos, será absoluto.
Sendo apenas vencido por gemidos
e por palavras sussurradas docemente...

E nossos corpos, como nascentes de rios,
embargados em suor,
em movimentos de carícias e cumplicidades...
Então te beijarei com toda intensidade de meu ser,
e,olhando dentro dos teus olhos, direi:
"SOU TEU DONO... VOCÊ ME PERTENCE !"
Sr. Ásgard
Que o amor em forma de servidão seja plena liberdade...
Com carinho...para amigo Ásgard.
Vânia Moraes




Thursday, June 22, 2006

CARNE






Que importa se a distância se estende entre léguas e léguas...
Que importa se existe entre nós muitas montanhas?
O mesmo céu nos cobre...
E a mesma terra liga nossos pés.
No céu e na terra é a tua carne que palpita...
Em tudo sinto o teu olhar se desdobrando...
Na carícia violenta do teu beijo..
Que importa a distância, que importa a montanha?
Se és tu a extensão da carne sempre presente...

Vinícius de Moraes





Tuesday, June 06, 2006

Despir um corpo pela primeira vez

Despir um corpo a primeira vez é um acontecimento entre dois deuses. Não se pode profanar o instante. E os amantes devem manter o ritmo dos altares. Porque, embora nesses rituais haja sempre panos e trajes para agradar ao olimpo, é para a nudez total que o céu nos quer arrebatar.
As mãos têm um compasso certo. Um andante ou largo de Bach nos gestos, compondo a alegria de homens e mulheres. As mãos, sobretudo, não podem se apressar. Com os olhos têm de aprender e, com a ponta dos dedos contemplar os acordes que irão surgindo quando, peça por peça, o corpo for se desvestindo ao pé do altar.
Antes de se tocar com as mãos e os lábios, na verdade, já se tocou o corpo alheio com um distraído olhar sempre envolvente. E ninguém toca um corpo impunemente. Despir um corpo a primeira vez não pode ser coisa de poeta desatento colhendo futilmente a flor oferta num abundante canteiro de poesia. Nem pode ser coisa de um puro microscopista que olhe as coisas sabiamente. Se tem de ser de sábio o olhar, que seja do botânico, porque esse sabe aflorar em cada espécie o que cada espécie tem de mais secreto ou distante, o que cada espécie saber dar.
Despir um corpo a primeira vez é conhecer pela primeira vez uma cidade. E os corpos das cidades têm portas para abrir, jardins de repousar, torres e altitudes que excitam a visitação. Algumas cidades sitiadas caem ao som de trombetas, outras se entregam porque não mais suportam a sede e a fome de amar. As cidades têm limites e resistência. E, como o corpo, querem alguém que as habite com intimidade solar.
Gêngis Kan, Átila ou qualquer conquistador vulgar têm com as cidades e corpos uma estranha relação. O objetivo é a devassa e a dominação. Conquistada a cidade, a ordem é marchar.
Por isso, cuidado para não se acercar do outro apenas com esse olhar guerreiro ou com esse olhar tolo de turista. O turista, embora procure os sabores típicos, é um voyeurista que só quer fotografar. Mas há turistas e turistas, e o pior turista é aquele que olha sem olhar. É um perdido marinheiro que está preso em algum porto, que não se permite num outro corpo inteiramente desembarcar.
Quando os corpos se tocam por acaso, como se estivessem indo em direções diferentes, o que ocorre é desperdício. Não se pode tocar um corpo impunemente. E para se tocar um corpo completa e profundamente num dado instante, os corpos têm que convergir. E convergir com uma lua diferente. A descoberta do outro é isso, é convergência.
Despir um corpo a primeira vez é como despir um presente. Por isso não se pode desembrulha-lo assim às pressas, embora a gula nos precipite afoitos sobre a pele oferta. Não se pode com mãos infantis descompassadas ir rasgando invólucros, arrebentando cordões com a gula que as crianças só têm nas confeitarias antes da indigestão.
Despir um corpo a primeira vez, para usar uma imagem conhecida, é mais do que ir a primeira vez a Europa. Pode ser ao contrário, desembarcar pela primeira vez na América sobre a nudez do desconhecido. É descobrir na pele alheia mais que a pele dele, a nossa pele índia. E volto àquela imagem: despir um corpo a primeira vez é tão marcante quanto a vez primeira que um mineiro viu o mar.
Um corpo é surpresa sempre. E o que se vê nas praias, nesse exercício coletivo de nudez total negaceada, em nada tira a eufórica contenção do ato, quando os dedos vão descendo botões e beijos e rompendo presilhas das carícias. Despir um corpo a primeira vez não é coisa para amador. Só se o amador for amador da arte de amar. Porque o corpo do outro não pode ter a sensação de perda, mas a certeza de que algo nele somou, que ele é um objeto luminoso que a outros deve iluminar.
Um corpo a primeira vez, no entanto, é frágil e pode trincar em alguma parte. E os menos resistentes se partem quando aquele que os toca, os toca apenas com a cobiça e nunca com a generosa mansidão de quem veio pela primeira vez, e sempre para amar.


Affonso Romano de Sant’ana
E se eu tiver que ficar nu, hei de envolver-me em pura poesia, e dela farei minha casa, minha asa...loucura de cada dia - Vander Lee

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